sexta-feira, 19 de setembro de 2008

PRÓXIMO, QUE PRÓXIMO?

Quanto assunto profundo
Invadi meu mundo
E por quase um segundo
Me sinto profundo imundo
Mas me lembro que sou
Um santo fecundo
A procura de resposta para as perguntas do mundo


Nesse mundo encaixotado
De pensamento enlatado
Alguém desalmado
Sem fala e calado
Me tem perguntado
Se é o meu próximo quem está a o meu lado


Mas quem é meu próximo?
Será Carolina, a menina
Ou João, o irmão
Será o pedreiro, será o padeiro
Ou aquele homem naquele madeiro
Será o menino de sorriso sem dente
Que quer ser independente
Com droga na mente
Ou será o nobre com seu coração cobre
Que no fim da vida se sente só mais um pobre
Então me inspiro
E com um grande suspiro...
Onde está você meu próximo


Saio à rua
A verdade é nua
A verdade é crua
O menino que pede
O mendigo que fede
A prostituta que atrai
A Madame trai
O bandido de arma na mão
O político com seu mensalão
Afinal quem é meu irmão
Se esses são só um “stone”
Não o meu clone
Nem tem o meu nome


Então, lá vem um Judeu
Não mais que um plebeu
E no meio da praça
Às ignoradas pedras abraça
Equilibrando o bêbado sem cair sua cachaça
E enfrentando a massa
Afirma à humana raça:
O próximo agora é teuE não mais meu

sábado, 30 de agosto de 2008

DIA CURTO



Que tal um dia de 23 horas?
Correria, essa é uma das palavras que melhor retrata a vida nos dias atuais. Já se acorda correndo, pois a sensação de que o tempo será curto já amanhece conosco. Não há tempo para o antigo café em família, pois precisamos correr – a final precisamos evitar os pontos do congestionamento. Bom dia, que palavra é essa ante a urgência de se começar as atividades de mais um dia de trabalho. Ao entardecer a correria não pára, pois lá vêm estudos, compromissos pessoais, atividades domésticas, e tantas outras coisas, enfim o homem moderno precisa correr freneticamente para dar conta das inúmeras coisas listadas em sua agenda, seja ela mental ou escrita.
Há pessoas que correm tanto que vivem expressando o desejo dia tivesse mais horas, pois assim poderiam correr com mais coisas. Corre-se tanto na vida moderna que se chega mesmo a correr das coisas que nos fazer correr, até mesmo há os que chegam a correr de si mesmo, sob a égide da palavrinha mágica do século XXI, stress. Na contramão dessa lógica, eu gostaria que o dia tivesse 23 horas. Que, ao menos, uma hora de nossos dias não fosse dedicada à pressa e fúria das desesperadoras e alienantes correrias.
A vida nos reservou prazeres que é impossível que a oralidade ou a textualização os descreva, assim é preciso experimentá-los. Por isso, dedique uma hora do seu dia às coisas aparentemente pequenas, tão pequenas e simples, que até poderia parecer ridículas que elas constassem em suas agendas. Redescubra o prazer caminhar a beira mar ou tão somente sentar-se em um daqueles baquinhos e ver o sol se pôr; experimente tomar um sorvete sobre o trapiche admirando a paisagem; dê uma volta de scuna pela baía sul e veja a cidade por ângulo diferente; desfrute andar descalço, deixar o vento bater em seu rosto, conversar informalmente, sorrir para alguém, cumprimentar quem você não conhece, enfim de fazer tantas coisas que a desumana correria já não mais permite.

Carpe Diem – Aproveite o dia de hoje!

domingo, 20 de julho de 2008

ENTRE O CÉU E O MAR

ENTRE O CÉU E O MAR

Tarde ensolarada de domingo, de calor um tanto quanto atípico para final de inverno, sou atraído pela imagem que posso visualizar há poucos metros de distância. Desço e logo me ponho entre as pessoas que passeiam pela calçada, junto ao mar; sem pressa caminho por entre as bancas da feira de arte, e, como de costume, na banca de livros paro a conversar e adquirir algumas obras. Encantado, como o menino com seus novos brinquedos, sento-me no gramado, junto ao trapiche, a folhear os escritos que agora tenho em mãos.
Em certo momento de minha leitura, sob o impacto de uma frase de Bial, meus olhos se distam em direção ao horizonte e os meus pensamentos para lá voam. Pouco depois olhando ao redor, com imagens ainda muito vivas em minha memória, logo vejo que não sou o único a estar detidamente olhando para um ponto imaginário entre o céu e o mar. Aqueles olhares em direção ao horizonte me intrigaram, pois que lugar é esse: que ufana o interiorano do Novo ou o citadino do Belo, que inspira o poeta, que faz uma nova geração cantar àquela velha canção, no qual sempre tem alguém de olhos fixos? Subitamente salta dentro de mim as palavras de Eduardo Galeano, nas quais ele afirma que no horizonte estão as nossas utopias e que quanto mais se caminha nessa direção, mais ele se afasta, sendo assim, jamais alcançado. Questiona Galeano a valia de se andar em direção ao nosso horizonte, mas, de pronto, afirma que isso serve para que nunca deixemos de caminhar.
Ante o peso das palavras do poeta, mas de alma leve pela compreensão, sorri. Entendi que aquele cenário de olhares compenetrados, fixos no horizonte, revelava aqueles que têm coragem de dialogar com seu mundo interior. Indivíduos sem medo de mergulhar no limite da razão e emoção, dos sonhos e realidades, do presente e do futuro; pessoas que resistem acreditando que até a utopia é possível, quando se tem um horizonte na vida e nele se está focado.

sábado, 12 de julho de 2008

Amor e Palavras

Amor e Palavras

Eu pergunto, tu perguntas, ele pergunta, enfim nós perguntamos. Ao final de um dia quantas perguntas será que ouvimos, e para quantas delas será que temos respostas. Bem, o dia que se chama “hoje” não foge a essa regra, ao final dele teremos ouvido incontáveis questionamentos.
E hoje, de modo muito especial, pela data que celebramos, uma questão permeia nossas mentes, que é: “O que significa a expressão – eu te amo.”
Pela madrugada me encontrei olhando o mar e tentando produzir resposta a essa questão. Ao amanhecer fui encontro de rostos, vozes e cheiros na tentativa de entender o que é o amor e o que significa dizer “Eu Te Amo”. Oh peregrinação inútil, pois voltei para olhar mar sem a resposta da minha questão.
De olhos fitos no mar, vi uma pequena flor mergulhar em suas águas. E essa cena conduziu o meu coração a mergulhar em minha memória, em busca da resposta do que significa dizer eu te amo. Após passar minha história em revista, um sorriso me brotou nos lábios, pois a minha razão foi vencida por meus sentimentos e então entendi o que significa dizer eu amo você.
Esperava me deparar com grandes e filosóficas respostas, mas a grandeza do amor transcende a pequenez dos dicionários; então, fui vencido pelo emergir de coisas pequenas e simples que materializam um eu te amo. Com os olhos da alma inundados pela emoção e com um sorriso incontido nos lábios, lembrei dos recados pedindo água, dos bilhetes escritos em guardanapos de restaurante, das fotos com dedicatória, dos passeios, dos sorvetes, dos mares e lagoas – ah e que lagoa, do carinho, das falas, das músicas, enfim de tantas coisas tão simples, mas tão marcantes e inigualáveis, que só podem ser a expressão mais pura e verdadeira do que significa dizer “eu te amo”. Foi aí que eu entendi que a supremacia do amor se traduz nos pequenos gestos e nas doces palavras. Por isso, basta um pequeno gesto, feito de longe ou de perto; bastam as simples palavras, desde que elas não sejam palavras apenas, mas que expressem a verdade do nosso amor em poder dizer: “Meu grande amor, nem sabes o bem que fazes, em me fazer sonhar esse amor, e em poder materializá-lo nas doces palavras” – “Eu Te Amo”.
Jesiel Paulino

sábado, 28 de junho de 2008

DO TRAPICHE À ÁGUA


Na Paulicéia desvairada, de tantos Mários, e, de tantos Andrades, cresci vendo a perua azul, do senhor Jorge, cortar as ruas do bairro onde morava. Do interior daquele carro se espalhava pelas ruas o som: “Peixeiro; olha o peixe fresquinho; compre peixe, minha senhora." Sim, senhor Jorge era o peixeiro. Bem, se essa cena ocorresse aqui em Floripa, por certo, o homem convidaria a todos para que comprassem uma ótima tainha, pois aqui nesta ilha se pesca e a melhor delas; aqui se come a melhor das tainhas, em especial a recheada com camarão.
Uma tarde dessas fiquei observando um pescador lançando sua tarrafa do trapiche à água. Por quase uma hora, lançara incansavelmente sua rede ao mar, sem apanhar nem se quer um peixe. Enquanto isso, próximo a ele, um casal da melhor idade celebrava cada novo peixe que tiravam do anzol, o qual estava na ponta do caniço que sustentavam com certo ar de sucesso e realização. Então não resisti, incomodado com aquela cena, parei minha leitura e caminhei ao encontro do pescador.
Logo, estabelecemos um diálogo:
- Senhor, boa tarde!
- Boa tarde, moço.
- Como está a pescaria?
- Está boa.
- Quantas vezes, o senhor, lança a tarrafa em uma hora?
- Não conto não, isso estressa. A pescaria já é para desestressar. Mas, o moço gosta de pescar?
- Não sei pescar. Na verdade, as vezes que tentei só alimentei os peixes. Senhor, por que se prende a tarrafa na boca?
- Para quando eu lançar a rede na água ela cair aberta, bem certinha. Moço, me diz uma coisa: “O que faz com esse livro, caneta e papel na mão?”
- Uso sempre esse horário e local para algumas de minhas leituras diárias.
- Aproveita moço. Meus pais me abandonaram, ainda bem criancinha, aí minha avó que me criou. Minha avozinha era muito pobre. Bem, ela ainda é. Eu não pude estudar, pois tive que trabalhar desde muito pequeno. Agora estou estudando numa escola de adulto. Vai demorar, mas ainda vou me formar; tenho esperança. A vida não foi muito boa comigo.
- A vida tem seus percalços, mas só de estarmos vivos já é motivo de agradecermos a Deus.
- Olha moço, lutei muito na vida, até comprei minha casinha, mas a vida é ingrata com a gente. Tenho uma filhinha de quatro anos, mas minha mulher me deixou e levou a menina. Parece que a maré está baixando, o vento mudando, não é?
- Não entendo bem disso não, senhor. Mas, me diga: “O senhor não vê sua filha?”
- Não gosto de falar disso não; tenho saudade. A menina fazia festa quando eu chegava com o peixe em casa. Você tem filho?
- Não senhor, eu não tenho não.
- Um dia você vai entender o que eu digo. Moço, você precisava ver a cara da menina quando comia o pirão. Ah, tenho saudade sim, mas tenho esperança, sei que minha menina ainda vai voltar.
- Pois é, senhor, até agora nada de peixe. Eu queria compartilhar da alegria de vê-lo pescar ao menos um.
- Que nada, enquanto está cordinha estiver presa em meu braço e eu puder atirar minha tarrafa na água, ainda tenho esperança de puxar uns peixes da água aqui para o trapiche.
- Bem, está entardecendo, preciso ir. Desejo que o senhor tenha sucesso, continue tentando, a final a esperança é a última que morre. Até outra oportunidade. Senhor foi um prazer.
- Boa tarde! Mas sabe moço, a gente morre, a esperança continua. Sempre tem alguém fazendo uso dela. Até mais, se Deus quiser.
Com as palavras daquele senhor fervilhando em minha mente, viro-me a caminhar no trapiche olhando os raios do sol que brilhavam sobre as águas. Saí dali entendendo que cada vez que aquele homem fazia todo aquele rito de ajeitar sua tarrafa, acertar os detalhes, e lançar a rede na água novamente, isso era mais do que um simples ato mecanizado. Chego mesmo a pensar que aquele é um autêntico brasileiro, não desiste nunca. Cada nova lançada da rede significava a renovação de sua esperança. A propósito, esperança é a palavra que melhor descreve aquele senhor: esperança de se formar, da filha voltar, do peixe apanhar; esperança de dias melhores; esperança que, segundo ele, sempre está dando um novo sentido à vida de alguém.
Em mim, ficam cravadas as palavras daquele senhor. Hoje, com esse anônimo pescador, aprendi a verdadeira essência das palavras de Tales de Mileto: “A esperança é o único bem comum a todos os homens; aqueles que nada mais têm – ainda a possuem.” Ah, a tainha recheada com camarão, vindo à Floripa não deixe de procurar a Tainha da Léslia. Essa é a melhor tainha que se pode comer aqui pela ilha.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

TEMPUS FUGIT

Mais uma fria manhã de inverno e eu, quase que instintivamente, estou outra vez frente a frente com o espelho. Detido ante a imagem refletida nessa superfície polida, eu assisto, como filme, os anos de minha história, os quais me confrontam com o irromper do som de “Tempus Fugit”, que quer dizer, “o tempo foge”.
Inevitavelmente começo um profundo diálogo com o espelho, mas estou tranqüilo, pois esse diálogo ou monólogo, eu não sei bem ao certo, já fazia parte das histórias infantis que me contavam, das canções que cresci ouvindo, ou, ainda mesmo, dos poetas que até hoje me influenciam. Poeta, e por falar em poeta, como faz sentido agora as palavras de Quintana, presentes em o velho do espelho. Confrontado pelo espelho que me disse, em palavras mudas e frias, que os anos passaram e o menino cresceu, e que agora, como evidencia o centenário poeta, sou invadido dia a dia, ruga a ruga, pelo velho do espelho me tornando semelhante a ele. O espelho me fez entender que o tempo é dinâmico, pois ele não pára, ele se vai; é o tempo se foi, o tempo fugiu. Atônito ainda, de olhos fitos nessa lâmina fria, sob o impacto de suas silenciosas e implacáveis palavras, eu entendo que fugaz é o tempo, que breve é a vida. Depois deste rápido e intenso diálogo com meu espelho, encaro mais um período de tempo cronológico, tempo mensurável, isto é, inicia-se mais um dia de minha história. Hoje, começo o dia sob uma nova perspectiva. O meu bom dia vem envolto de uma nova compreensão: deixo-me encantar mais pelas coisas simples da vida. Aproveitarei para abrir minha janela e, verei, e me encantarei com as scunas que partem; caminharei a Beira Mar contemplando o sol refletir sobre as águas, me deterei vendo os enxadristas e o mercado do velho centro. Em ato de entrega ao tempo, ou a esse momento que se chama vida, me dedicarei a contemplar a beleza e a pureza do universo infantil, sentarei para o café filosófico de cada dia com meus amigos, como se fosse o primeiro deles, viverei intensamente cada segundo buscando entender a beleza e a atração do azul, sorrirei com o coração ao ver chimango tentando converter maragato. Enfim viverei intensamente o dia de hoje, como se não houvesse amanhã.